Poucas obras na história da literatura têm o peso da Odisseia. Escrita há quase três milênios, ela continua sendo lida, adaptada e citada, muitas vezes sem que a gente perceba o quanto do nosso vocabulário e da nossa forma de narrar vêm diretamente dela. Neste post, vou traçar um panorama do contexto histórico do poema, um resumo do enredo e uma seleção de curiosidades que ajudam a entender por que essa história atravessou tantos séculos.

Quem foi Homero, afinal?

Não existe nenhum registro biográfico confiável sobre Homero: nem data de nascimento, nem local de origem confirmado (pelo menos sete cidades gregas reivindicavam ser sua terra natal), nem provas de que ele soubesse escrever.

Esse impasse é conhecido academicamente como “questão homérica”: discute-se se Homero foi de fato um único poeta genial, se era o nome dado a um compilador que organizou séculos de tradição oral, ou até se “Homero” é uma espécie de assinatura coletiva de vários aedos (os poetas-cantores da Grécia arcaica) que foram aperfeiçoando o texto ao longo do tempo. A hipótese mais aceita hoje é a de que a Odisseia nasceu de uma longa tradição oral, transmitida de geração em geração através de fórmulas, epítetos fixos (“o astucioso Odisseu”, “a Aurora de dedos róseos”) e métrica (o hexâmetro dátilo) que ajudavam os cantores a memorizar e improvisar o poema em apresentações públicas.

Entre a Guerra de Troia e o texto que conhecemos

A ação da Odisseia começa logo após o fim da Guerra de Troia, evento que a tradição grega situava por volta de 1200 a.C., no fim da Idade do Bronze. Já a composição do poema, na forma que conhecemos, é datada por volta do século VIII a.C., num momento em que a Grécia estava justamente adotando o alfabeto (adaptado dos fenícios) — o que teria permitido, finalmente, transformar em texto escrito o que até então só existia na voz dos aedos.

Vale lembrar que a própria Guerra de Troia tem lastro histórico parcial: escavações no sítio de Hisarlik, na atual Turquia, conduzidas no século XIX por Heinrich Schliemann, revelaram camadas de uma cidade destruída por volta de 1180 a.C., período compatível com a tradição. Isso não prova que os eventos da Ilíada e da Odisseia aconteceram como narrados, mas sugere que o mito pode ter um núcleo de memória histórica real, remodelado por séculos de narrativa oral.

O texto também não chegou até nós direto da Grécia arcaica: foi editado e organizado, inclusive, dividido nos 24 cantos que conhecemos hoje, um para cada letra do alfabeto grego por bibliotecários e estudiosos de Alexandria, já no período helenístico, séculos depois de sua composição original.

Enredo

Depois de dez anos de guerra em Troia, o rei de Ítaca, Odisseu (ou Ulisses, seu nome em latim), tenta voltar para casa. E a viagem, que deveria durar semanas, se estende por mais dez anos, por causa da ira do deus Poseidon, a quem Odisseu ofendeu ao cegar seu filho, o ciclope Polifemo.

Nesse caminho, ele enfrenta o canto hipnótico das sereias, o gigante Polifemo, a feiticeira Circe (que transforma seus companheiros em porcos), a passagem entre o monstro Cila e o redemoinho Caríbdis, e a bela ninfa Calipso, que o mantém preso em sua ilha por sete anos. Enquanto isso, em Ítaca, sua esposa Penélope resiste ao assédio de dezenas de pretendentes que querem seu trono, e seu filho Telêmaco cresce sem pai, tentando se afirmar como herdeiro.

Uma estrutura ousada para a época

Um detalhe que impressiona estudiosos de narrativa até hoje: a Odisseia não começa no início da história. Ela começa in medias res — “no meio das coisas” —, já perto do fim da jornada de Odisseu, quando ele está preso na ilha de Calipso. As aventuras anteriores (o ciclope, as sereias, Circe) só são narradas depois, em flashback, contadas pelo próprio Odisseu a um povo que o acolhe, os feácios.

Esse recurso — hoje tão comum em filmes e séries — era uma escolha estrutural sofisticada para um poema de quase três mil anos atrás, e é um dos motivos pelos quais a obra ainda é estudada em cursos de roteiro e narrativa contemporânea.

Curiosidades curiosas

  • A origem da palavra “mentor”: vem diretamente do personagem Mêntor, amigo de confiança de Odisseu, a quem ele confia a educação do filho Telêmaco. Daí o uso moderno da palavra para designar um guia experiente.
  • O truque de “Ninguém”: quando o ciclope Polifemo pergunta o nome de Odisseu, ele responde “Outis” (Ninguém). Assim, quando Odisseu o cega e Polifemo grita pedindo ajuda dizendo que “Ninguém” o atacou, os outros ciclopes não acodem achando que não havia problema algum.
  • Penélope e a mortalha: para enrolar os pretendentes, Penélope promete escolher um novo marido assim que terminar de tecer uma mortalha — mas desfaz à noite o que teceu de dia, adiando a decisão por anos. É um dos primeiros grandes exemplos literários de astúcia feminina como motor da trama.
  • A cena do cão Argos: um dos momentos mais comoventes do poema é o reencontro de Odisseu, disfarçado de mendigo, com seu velho cão Argos — que o reconhece, mesmo após vinte anos, e morre logo em seguida. É frequentemente citada como uma das primeiras grandes cenas de emoção contida na literatura ocidental.
  • A palavra “odisseia” entrou para várias línguas, incluindo o português, como sinônimo de jornada longa, cheia de peripécias e obstáculos — muito além do contexto do poema original.
  • Influência direta em obras modernas: o romance Ulisses, de James Joyce (1922), é estruturado como um espelho moderno da Odisseia, ambientado em um único dia em Dublin. O filme E aí, meu irmão, cadê você? (2000), dos irmãos Coen, também é uma releitura livre do poema, ambientada no sul dos EUA durante a Grande Depressão.

O filme de Nolan nos tempos atuais

A Odisseia não é só um relato de aventuras fantásticas mas também é um dos primeiros grandes textos ocidentais a explorar temas que continuam centrais até hoje: o desejo de voltar para casa (os gregos tinham até uma palavra específica para isso, nostos, raiz da palavra “nostalgia”), os limites entre astúcia e honestidade, a hospitalidade como valor social (a xenia grega) e a espera como forma de resistência, encarnada em Penélope.

Quase três mil anos depois, ainda recorremos a essa história para falar de jornadas — pessoais, profissionais, criativas — que se estendem muito além do que planejamos. Não é exagero dizer que, toda vez que alguém descreve um período difícil como “uma verdadeira odisseia”, está, sem saber, citando Homero.

O filme de Christopher Nolan lançado em 2026 sobre a trama reacende o interesse na literatura homérica que ainda capta leitores há mais de três milênios.


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